O início

O programa CURARTE nasce do projeto Arte no Hospital, iniciado em 2020 no Hospital de Santa Maria por dois jovens estudantes de Medicina – a Francisca Borges Fava e o Pedro Nuno Fava – enquadrando-se no Grupo Académico de Artes, da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina de Lisboa. Movidos por um profundo sentido de missão, desenvolveram uma ação integrada em que usaram a arte – pintura, ilustração, fotografia e poesia – em departamentos específicos do HSM para criar espaços mais acolhedores, com impacto positivo para todos os que por ali passam.

A Égide

A Égide identificou-se profundamente com o Arte no Hospital, vendo nele uma clara e natural extensão do seu propósito, uma vez que o projeto afirma o poder transformador da arte não apenas como expressão criativa, mas como um caminho para a cura, para o conforto e fortalecimento do espírito humano. A Égide apoiou assim este projeto, e quis conferir-lhe uma visão mais ampla e aprofundada, tornando-o num programa que une cultura e ciência para repensar os espaços de saúde e alavancar o seu potencial de cuidado e regeneração.

Desafio

Num momento em que o SNS procura responder a novas exigências sociais, tecnológicas e humanas, o CURARTE propõe introduzir outra forma de pensar e agir dentro dos espaços dedicados à saúde. O desafio é implementar uma abordagem interdisciplinar que una arte, design, arquitectura, e outras dimensões culturais ao quotidiano das instituições de saúde - não como complemento, mas como parte integrante da sua vida e funcionamento. Trata-se de abrir espaço a novas práticas, de cultivar uma forma de cuidar que valoriza também a dimensão sensível e simbólica procurando ter um impacto positivo profundo no ecossistema do cuidado actual.

Visão e missão

O CURARTE é um programa de longo prazo centrado na forma como as práticas culturais podem contribuir para a cura no contexto hospitalar e nas instituições de saúde em geral. Propõe uma visão do hospital como um ecossistema do cuidado, procurando ajudar a construir comunidades de bem-estar mais abrangentes e eficazes, contemplando doen-tes, profissionais de saúde, famílias e visitantes. Assenta na convicção de que a relação da cultura com a saúde não é acessória mas sim estruturante e transforma-dora – não se encontra na periferia, mas no centro daquilo que significa cuidar. Vê o hospital como um organismo vivo que une ciência, cultura e natureza, onde a beleza, a criatividade, a inspiração e a esperança funcionam como forças activas de cura. O CURARTE propõe e concretiza intervenções site-specific que emergem da colaboração entre comunidade cultural e científica – e que ganham forma através do diálogo, do trabalho de campo e da participação colaborativa entre várias frentes e parcerias nacionais e internacionais.

“Num país e num mundo onde há famílias sem casa e doentes sem tratamento e sem hospital, a questão da liberdade de criação artística e intelectual pode parecer uma questão secundária. A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar – para que o Homem possa construir, e construir-se, em consciência, em verdade e liberdade, e em justiça. E, se o Homem é capaz de criar a revolução, é exatamente porque é capaz de criar cultura.”

O hospital como ecossistema de cuidado

Um hospital é um organismo vivo, onde se cruzam emoções, decisões, fragilidades e esperanças. Pensá-lo como um ecossistema de cuidado é reconhecer que o processo de cuidar depende da relação entre múltiplos elementos – humanos, espaciais, temporais e simbólicos que se influenciam e regeneram mutuamente.

A cultura

porque devolve humanidade e sentido, tornando os espaços mais expressivos, os gestos mais empáticos e o quotidiano mais partilhado.

A natureza

porque sublinha que o hospital faz parte de um sistema maior – o planeta – e que o contacto com a luz, o ar fresco, as plantas e o ritmo natural tem um poder restaurador sobre o corpo, a mente e o espírito.

A saúde pública em Portugal

Em Portugal, o Serviço Nacional de Saúde é um pilar da coesão social e do direito à saúde, que opera a uma escala vasta: mais de dez milhões de utentes, centenas de unidades hospitalares e milhares de profissionais em todo o território. Hoje, o SNS vive um contexto de pressão assistencial crescente, marcado pela escassez de recursos humanos, envelhecimento da população e sobrecarga das infraestruturas, a par de taxas de ocupação hospitalar elevadas e procura contínua de cuidados especializados.

Portugal 2024/

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Utentes no SNS/

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Profissionais de saúde/

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Hospitais/

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Unidades locais de saúde/

O impacto da cultura na saúde

Nas últimas décadas, uma variedade de estudos têm evidenciado o papel transformador da cultura no contexto da saúde. A arte, o design e a arquitectura – a par de outras disciplinas – quando integradas de forma estratégica nos espaços de cuidado, geram benefícios para doentes, profissionais e instituições. Investir em cultura na saúde é uma oportunidade real de requalificação estratégica dos sistemas públicos de cuidado – com impacto direto na experiência de todos os que habitam, trabalham ou passam por uma instituição de saúde.

Exemplos internacionais

Em vários países, a integração entre arte, arquitectura e saúde já é política, método e prática, com resultados monitorizados e estruturas dedicadas:

Reino Unido (NHS)

Departamentos de artes em hospitais, comissões de arte contemporânea e “arts on prescription” em saúde mental; destaque para Hospital Rooms e Arts & Health South West.

Suécia

Integração de arte desde a fase de projeto; regra do 1% para a arte em edifícios públicos assegura investimento estável e continuado.

Canadá

Projetos participativos e residências em hospitais pediátricos e paliativos (ex.: Alberta Children’s Hospital), com forte ligação a universidades.

Países baixos

Intervenções regulares de artistas e arquitetos em espaços clínicos, sustentadas por investigação académica e políticas públicas.

Austrália

Rede consolidada (Arts in Health Australia); o Royal Children’s Hospital, Melbourne, integra arte e interação desde a conceção.

Estados Unidos

Programas robustos em sistemas e universidades (ex.: Cleveland Clinic, UCLA Health Arts), combinando arte, design e investigação em saúde mental.

Relação com as universidades

As universidades são parceiras naturais neste contexto, não apenas como fontes de conhecimento, mas como espaços de experimentação, pensamento crítico e formação das gerações futuras. Este programa nasceu do impulso de dois jovens estudantes de medicina que no seu primeiro ano de faculdade criaram o projeto Arte no Hospital – manter essa ligação viva com as associações de estudantes é essencial. Através de colaborações académicas, projetos de investigação aplicada, residências interdisciplinares e momentos de partilha e apresentação, o programa CURARTE vai criar uma relação contínua entre o hospital e os estudantes. Esta relação garante que o espírito inicial dos estudantes – curioso, empreendedor, colaborativo e transformador – característico desta fase etária, continue a inspirar novas formas de cuidar e de pensar a relação da saúde com a cultura.